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QUINTA-FEIRA, 14 DE DEZEMBRO DE 2017

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20 de NOVEMBRO de 2017

Preta Gil lança quarto álbum em 15 anos de carreira

foto: divulgação

"Isso aqui não é a realidade", diz a cantora Preta Gil. Ela aponta para seu celular, em cima da mesa no jardim da casa paulistana na qual se hospedou para os compromissos na cidade. Em São Paulo, lança o quarto álbum de estúdio, "Todas as Cores", e celebra os 15 anos como cantora.

"O mundo real é o contato físico com as pessoas. É o afeto, a família, meus fãs. Um monte de gente está falando e eu estou vivendo, não estou conectada. Já sofri com isso? Já, bastante. Mas aprendi a ter um distanciamento."

Ainda assim, ela publica até 30 vezes por dia no Instagram. "Cada um com 15 segundos, não dá dez minutos. O que são dez minutos do meu dia? Quase nada. A vida privada está preservada. Isso não me preocupa no resto do dia."

Mas seus fãs se preocupam. Ela é seguida por 5,4 milhões de pessoas no Instagram e por 4,2 milhões no Facebook. Afirma não se importar com o que as pessoas estão falando.

"Nisso eu dou aula para todo mundo. Não pode me afetar a opinião de alguém que eu não conheço. Chega uma hora que tem de desligar." Na família, seu único filho, Francisco, 23, tem uma opção pessoal discreta. Mas a neta de Preta, Sol, aparece em vários posts da vovó de 43 anos.

Poucas horas antes da entrevista à reportagem, Preta foi surpreendida pela retirada na programação do YouTube do clipe de "Vá Se Benzer", canção do disco novo tratada como manifesto contra pessoas que julgam os outros sem conhecê-los.

Enquanto a conversa transcorre, o clipe volta ao ar. Pode ter sido só problema técnico, mas o teor provocador da música dueto com Gal Costa, no clipe traduzido em imagens de pessoas simulando uma orgia, joga na internet várias teorias de conspiração. Será que foi ação de haters?

Em tempos de intolerância e episódios de embate agressivo nas redes, Preta não fica fora da discussão. Nem poderia, pela figura midiática que se tornou, desde muito antes de sua estreia como cantora.

Há 43 anos, Preta apareceu no "Fantástico" (Globo), com poucas horas de vida. Diz que ser filha de Gilberto Gil sempre foi bom. "Gostava disso. Quando eu tinha uns cinco anos e uma música dele tocava em algum lugar, cutucava os outros para dizer que era meu pai cantando. Amava. Onde eu chegava já ia dizendo que meu pai era o Gilberto Gil, que a minha madrinha era a Gal Costa."

Mas, há 15 anos, quando, depois de relutar muito, se lançou como cantora, a imprensa preferiu incensar Maria Rita, outra filha de famoso (Elis Regina) estreando na mesma época. Preta não foi levada a sério. Queriam saber apenas como o pai, então recém-empossado ministro da Cultura no governo Lula, reagia ao ver as fotos da filha nua na capa e no encarte do disco "Prêt-à Porter" (2003).

"Com poucas exceções, a imprensa me incluiu na categoria 'celebridade'. Foi retirado de mim qualquer mérito como cantora, fui desprezada. Era mais fácil e bem tentador falar apenas sobre a filha polêmica do ministro do que lidar com mais uma cantora no cenário. Temos tantas, né?"

NOVOS BAIANOS 2.0

O álbum reunia uma espécie de segunda geração dos Novos Baianos. Tinha Betão Aguiar, Pedro Baby e Davi Moraes tocando e compondo boa parte do material. Preta também recorreu a compositores de peso, como o então consagrado Dalto e Ana Carolina, esta em ascensão.

Ana Carolina faz uma ponte com o novo trabalho. Em "Todas as Cores", ela é autora de "Botando a Fila para Andar", uma faixa com cara de sucesso. "Não vai tocar no rádio, mas podia", diz Preta.

Entre a estreia e o novo álbum, ela lançou outros dois, "Preta" (2005) e "Sou Como Sou" (2012), que marcam uma trajetória em que se desenvolve como cantora, no apuro da técnica vocal, e troca a MPB mais inventiva dos amigos jovens do primeiro álbum pela opção de uma pegada mais pop, mais simples.

Mulher, negra, fora dos padrões de beleza dominantes, defensora de liberdades de comportamento e sexualidade e, quando deixam, cantora, ela não quis mais sair do foco. Assim, na efervescente discussão entre alas conservadoras e liberais nas redes, é estranho ouvir alguém como ela falar em "distanciamento".

Para Preta, as seguidas internações do pai para tratar problemas renais foram a fase mais difícil dessa exposição.

"A gente se preocupava zero com os boatos, nossa preocupação era com a doença real. Como ele iria sair daquela, e ele saiu muito bem. Na turnê com Nando Reis e Gal ele está iluminado, superbem. Acho que quando a pessoa tem esse contato com a finitude, com a possibilidade real de morrer, e fica bom, isso deve dar a ela um gás, dar valor à vida. Ele melhorou em todos os aspectos. Tem mais energia, mais afetividade."

Falando sobre as redes sociais para além da vida pessoal, Preta não parece surpresa com o tom belicoso.
"Do mesmo jeito que a gente tem o direito de fazer um clipe que prega a liberdade, que prega o amor, a inclusão, o direito de ser quem a gente é, quem não pensa igual a mim tem o direito de reclamar. O limite está na violência, e a gente não está falando só de violência física ou verbal, mas de qualquer maneira de impedir que as pessoas tenham liberdade."

Para a artista, as redes sociais apenas facilitaram as conexões já existentes. "Sabe aquele primo homofóbico? Ele iria falar no almoço do domingo que não gostava do tio homossexual? Hoje ele tem a rede social para falar livremente o que pensa, e lá ele vai encontrar pessoas como ele. Quem pensa igual vai se conectando."

CERTO OU ERRADO

"São movimentos reacionários, moralistas? Não sei. Devem ser legítimos dentro de algum ideal desses grupos, que não entendo qual é. Mas não me sinto agredida na pele. Como posso dizer que essas pessoas estão erradas? Sei o que é certo e errado pra mim. Tenho que continuar resistindo, o que faço há 15 anos."
Depois de apresentar programa na TV, fazer novela, ser rainha de bateria da Mangueira, cantar em turnês em espaços pequenos e criar um bloco de Carnaval bem-sucedido, ela quer o foco na música.

"Todas as Cores" é praticamente uma parceria com o produtor Batutinha, nome forte do funk. Tem no repertório, além do dueto com Gal, outros com Pabllo Vittar ("Decote") e Marília Mendonça ("Me Testa"), nomes que devem chamar a atenção de novos públicos para ela, os fãs da sofrência e do sertanejo.

Depois da agenda cheia do Bloco da Preta no Carnaval, pretende fazer a partir de abril uma turnê do novo disco, talvez em teatros, com público sentado. "Até lá vou discutir muito o tema na terapia. Será que estou madura para isso?"



Fonte: Folha Press



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